ATUALIZADO***CRÔNICA DO DIA
As crônicas escritas nesta página são retiradas do livro "O imaginário cotidiano", escrito por Moacyr Scliar. São textos ficcionais baseados em notícias do jornal Folha de S.Paulo, publicados desde 1993. Espero que vocês gostem!!!
Beijos da Escritora!
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DUAS ESCOVAS DE DENTE, UM COPO
Manchete: "Divida a casa sem multiplicar problemas. Morar juntos traz óbvias... mas implica também repartir o banheiro." (Folha Equilíbrio, 27 jul. 2000)
No começo, era só amizade: colegas de faculdade resolveram repartir o aluguel de um pequeno apartamento. Aparentemente nada tinha a ver com sexo, mas já na segunda noite ele se introduziu na cama dela e a partir daí nasceu uma paixão furiosa, uma paixão que ela, como disse às amigas, jamais tinha experimentado. Escusado dizer que estavam muito felizes, os dois, e que se congratulavam pela idéia que tinham tido, de partilhar a morada.
Os meses passaram e, como sempre acontece, a rotina foi substituindo a paixão. Não que fosse uma rotina desagradável, pelo contrário: ambos gostavam das mesmas coisas, dos mesmos livros, dos mesmos CDs, da mesma comida. Descobriram que a calma convivência pode ser tão gratificante quanto o sexo. E ele se declarava muito feliz.
Ela também... Ela também. Mas na verdade, não se sentia inteiramente feliz. Por causa de um detalhe: o banheiro.
Havia um único banheiro. Minúsculo, com um armário igualmente minúsculo. Nesse armário, guardavam o mínimo de coisas possível: pente, escova para cabelo, desodorante, alguns frascos de remédio. Ah, sim, e o copo com as duas escovas de dente.
Esse copo incomodava-a. Muito. Aliás, não exatamente o copo: as escovas. E não exatamente as escovas: a escova. A dele.
Era uma escova grande (o que se justificava: ele tinha belos, mas enormes dentes), com um cabo retorcido, e, o que era pior, uma cor horrível, um amarelo gema-de-ovo, cuja a visão a deixava doente. A escova dela, ao contrário, era pequena, delicada, de um azul muito pálido. Ou seja: a escova amarela dominava aquele espaço. A escova amarela afirmava, de forma gritante, a sua superioridade. E aquilo ela não podia suportar.
Várias vezes pediu-lhe que trocasse de escova. No começo, ele levou na brincadeira, não eu bola. Quando ela insistiu, respondeu de maus modos. Pela primeira vez, brigaram, ela chorou.
A briga repetiu-se: acabaram por se separar. E, separados, ela descobriu o quanto o amava. Telefonou-lhe, implorou por uma reconciliação. Inítiu: ele já tinha outra namorada.
Ela mora sozinha. No minúsculo armário de seu minúsculo banheiro há um copo com duas escovas. Uma é a dela: pequena, delicada. A outra, que comprou depois de muito pesquisar, é uma escova amarela, de cabo retorcido, enorme, horrível. Cada vez que ela olha essa escova, deixa escapar um suspiro. E lembra que um dia foi feliz.
Essa é a crônica de hoje, espero que tenham gostado!
No começo, era só amizade: colegas de faculdade resolveram repartir o aluguel de um pequeno apartamento. Aparentemente nada tinha a ver com sexo, mas já na segunda noite ele se introduziu na cama dela e a partir daí nasceu uma paixão furiosa, uma paixão que ela, como disse às amigas, jamais tinha experimentado. Escusado dizer que estavam muito felizes, os dois, e que se congratulavam pela idéia que tinham tido, de partilhar a morada.
Os meses passaram e, como sempre acontece, a rotina foi substituindo a paixão. Não que fosse uma rotina desagradável, pelo contrário: ambos gostavam das mesmas coisas, dos mesmos livros, dos mesmos CDs, da mesma comida. Descobriram que a calma convivência pode ser tão gratificante quanto o sexo. E ele se declarava muito feliz.
Ela também... Ela também. Mas na verdade, não se sentia inteiramente feliz. Por causa de um detalhe: o banheiro.
Havia um único banheiro. Minúsculo, com um armário igualmente minúsculo. Nesse armário, guardavam o mínimo de coisas possível: pente, escova para cabelo, desodorante, alguns frascos de remédio. Ah, sim, e o copo com as duas escovas de dente.
Esse copo incomodava-a. Muito. Aliás, não exatamente o copo: as escovas. E não exatamente as escovas: a escova. A dele.
Era uma escova grande (o que se justificava: ele tinha belos, mas enormes dentes), com um cabo retorcido, e, o que era pior, uma cor horrível, um amarelo gema-de-ovo, cuja a visão a deixava doente. A escova dela, ao contrário, era pequena, delicada, de um azul muito pálido. Ou seja: a escova amarela dominava aquele espaço. A escova amarela afirmava, de forma gritante, a sua superioridade. E aquilo ela não podia suportar.
Várias vezes pediu-lhe que trocasse de escova. No começo, ele levou na brincadeira, não eu bola. Quando ela insistiu, respondeu de maus modos. Pela primeira vez, brigaram, ela chorou.
A briga repetiu-se: acabaram por se separar. E, separados, ela descobriu o quanto o amava. Telefonou-lhe, implorou por uma reconciliação. Inítiu: ele já tinha outra namorada.
Ela mora sozinha. No minúsculo armário de seu minúsculo banheiro há um copo com duas escovas. Uma é a dela: pequena, delicada. A outra, que comprou depois de muito pesquisar, é uma escova amarela, de cabo retorcido, enorme, horrível. Cada vez que ela olha essa escova, deixa escapar um suspiro. E lembra que um dia foi feliz.
Essa é a crônica de hoje, espero que tenham gostado!
Beijos da Escritora!
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Foi uma excelente idéia incluir a "Crônica do Dia", será uma delícia acompanhar!!
ResponderExcluirAdorei a leitura!!
Gostei! Estou esperando pela próxima!
ResponderExcluirJúlia
Adorei o texto. Bjs Mamãe
ResponderExcluirQue bom que vocês gostaram!!!Beijos!!!
ResponderExcluirMuito imteressante.Queria ter então, se fosse sempre assim, um saco de notas falcificadas para serem roubadas!
ResponderExcluirpois é, quem me dera!!!
ResponderExcluirai galera postem comentários!!! Quero saber o que vocês acharam das histórias e das postagens!!! Beijos da Escritora!!!
ResponderExcluirCade os comentários???
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